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A menopausa

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Capa da edição 032 do MYPAUSA News

MYPAUSA NEWS   ·   Edição 032   ·   PDF

Menopausa, cérebro e saúde mental

Uma edição sobre saúde mental, tecnologia e as novas conversas sobre a menopausa.

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Toda semana, o que a ciência moveu e o que isso muda no seu consultório na segunda-feira.

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Leitura crítica da ciência da menopausa.

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Imprensa

A dor crônica entrou na agenda da menopausa

20 de outubro de 2026

No White Paper de 2026, a International Menopause Society escolheu a dor crônica como tema central. A mensagem é direta: metade das mulheres na meia-idade convive com dor, e ela ainda é pouco reconhecida, pouco diagnosticada e tratada de forma fragmentada.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • Cerca de metade das mulheres na meia-idade vive com dor crônica, muitas vezes com síndromes sobrepostas, como fibromialgia, enxaqueca e dor pélvica crônica. Mulheres com mais sintomas da menopausa têm quase o dobro de chance de dor crônica.
  • A flutuação e a queda do estradiol interagem com a degeneração musculoesquelética, a sensibilização neuroimune e a resposta ao estresse, amplificando a percepção e a manutenção da dor.
  • O cuidado precisa ser multidisciplinar e personalizado. A terapia hormonal tem papel no alívio da carga de sintomas e nos quadros de dor de início recente associados à menopausa, mas não deve ser usada como analgésico isolado.

A DOR TEM SEXO E TEM FASE

A dor crônica atinge mais de 30% da população mundial, e as mulheres têm de 50% a 70% mais chance de vivê-la do que os homens. Nas clínicas de dor, elas são maioria: de 62% a 68% dos pacientes no Canadá e 86,7% no registro sueco de reabilitação.

Na meia-idade, a diferença se acentua. Uma metanálise recente mostrou risco maior de dor crônica nas mulheres, com destaque para a fibromialgia, cerca de três vezes mais frequente. Em registros de veteranas norte-americanas, 52% das mulheres na meia-idade tinham dor crônica e 22% tinham dois ou mais diagnósticos de dor. As que tinham sintomas da menopausa apresentaram quase o dobro de chance de dor crônica.

O White Paper resume essa interseção: a transição menopausal coincide com uma vulnerabilidade maior à dor, somada ao fogacho, ao sono fragmentado, às alterações de humor, à névoa mental e ao cansaço. Tudo isso pesa na experiência da dor.

A SÍNDROME MUSCULOESQUELÉTICA DA MENOPAUSA

A dor musculoesquelética atinge cerca de 71% das mulheres na perimenopausa, com frequência maior que na pré-menopausa. Na pós-menopausa, cresce o risco de dor moderada a grave.

O conceito de síndrome musculoesquelética da menopausa reúne um conjunto de alterações ligadas à deficiência de estrogênio:

  • dor articular e muscular;
  • perda de massa magra;
  • redução da densidade óssea, com aumento do risco de fratura;
  • fragilidade de tendões, ligamentos e cartilagem;
  • capsulite adesiva.

Todas essas alterações contribuem para a progressão da osteoartrite. O mecanismo tem base biológica sólida: os receptores de estrogênio ERα, ERβ e GPER estão presentes na cartilagem, na sinóvia, no disco intervertebral e nas estruturas neurais. A dor no joelho da osteoartrite, típica da perimenopausa, é influenciada pelo estrogênio em todas as suas etapas, do dano tecidual à sensibilização dos nervos.

A obesidade amplifica o quadro, porque o tecido adiposo funciona como órgão endócrino e inflamatório.

QUANDO A DOR DEIXA DE SER LOCAL

Nem toda dor crônica nasce de lesão. O White Paper reforça três mecanismos que convivem na mesma paciente:

  • Dor nociceptiva: vem do tecido, como na osteoartrite e nas tendinopatias;
  • Dor neuropática: vem de lesão do nervo;
  • Dor nociplástica: vem de alteração no processamento da dor, e a fibromialgia é o protótipo.

A chave é a sensibilização central. Com estímulo doloroso persistente, os neurônios da medula reduzem o limiar de ativação e o sistema nervoso entra em estado de hiper-reatividade. A dor passa a durar mais que a lesão e se espalha. Por isso, muitas mulheres com alterações discretas nos exames de imagem relatam dor intensa, cansaço, sono ruim e queixas cognitivas. Não reconhecer a sensibilização central leva a exames repetidos, procedimentos desnecessários e frustração da paciente.

FIBROMIALGIA, PELVE E ENXAQUECA: AS DORES QUE SE SOBREPÕEM

Fibromialgia. Numa coorte de 169 pacientes, a fibromialgia começou antes da menopausa em 51% dos casos e junto com ela em 21,9%. As mulheres que entraram na menopausa até os 49 anos tiveram mais sensibilidade à dor do que as que entraram depois.

Dor pélvica crônica. Atinge cerca de 15% das mulheres no mundo e raramente tem uma única origem. Útero, bexiga e vulva compartilham os mesmos segmentos medulares, e a inflamação persistente de um órgão sensibiliza os vizinhos.

  • Na pós-menopausa, sintomas urinários e dor na bexiga costumam ser confundidos com infecção urinária de repetição ou com síndrome geniturinária, levando a antibióticos desnecessários.
  • A endometriose persiste após a menopausa em até 5% dos casos.
  • A vulvodinia pode estar presente até os 70 anos.
  • O assoalho pélvico funciona como o amplificador final da dor e precisa ser avaliado em exame estruturado.

Enxaqueca. Atinge cerca de 17% das mulheres e se intensifica na perimenopausa, com a flutuação do estradiol. O White Paper traz pontos práticos:

  • Contraceptivos combinados com estradiol ou estetrol têm perfil tromboembólico mais favorável que os com etinilestradiol. Usados de forma contínua, evitam a enxaqueca da queda de estrogênio.
  • Na enxaqueca com aura, os combinados são contraindicados. Uma alternativa é a drospirenona 4 mg contínua, associada ao estradiol transdérmico, que também protege o endométrio na terapia hormonal.
  • A enxaqueca com aura não contraindica a terapia hormonal. A via transdérmica é a preferida, com o regime contínuo e a menor dose eficaz.

A LEITURA BRASILEIRA

O White Paper cita um estudo transversal brasileiro em que a dor orofacial, sobretudo a disfunção temporomandibular, esteve associada aos sintomas da menopausa no fim da transição. É um sinal de que a dor da mulher brasileira na menopausa também se expressa em territórios pouco perguntados no consultório.

O documento também dedica uma seção à influência da cultura sobre a experiência da dor. A forma de sentir, nomear e relatar a dor muda entre povos e regiões, e a competência cultural do médico interfere na avaliação e no tratamento. Num país continental, com diferenças regionais tão marcadas, essa leitura reforça a necessidade de dados brasileiros sobre a dor na transição menopausal, que ainda são escassos.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • Perguntar ativamente pela dor. Fogacho, sono, humor e dor fazem parte do mesmo quadro. Mulheres com mais sintomas da menopausa têm quase o dobro de chance de dor crônica.
  • Identificar o mecanismo predominante. Nociceptivo, neuropático ou nociplástico: o tratamento muda conforme o motor principal da dor.
  • Validar a experiência da paciente. O White Paper trata a validação como intervenção terapêutica: ser ouvida e acreditada é, muitas vezes, o primeiro passo da recuperação.
  • Terapia hormonal com critério. Os receptores de estrogênio presentes nos tecidos musculoesqueléticos sustentam a racionalidade biológica. No estudo de estrogênio isolado do WHI, houve redução modesta da dor articular, e no WISDOM as usuárias de terapia combinada relataram menos dores articulares e musculares. O documento propõe um teste individualizado de terapia hormonal nas mulheres com dor de início recente associada à menopausa, e reconhece seu benefício indireto ao reduzir a carga global de sintomas.
  • Testosterona como campo em construção. O Consenso Global pede ensaios bem dimensionados para músculo, osso e composição corporal. Num ensaio em mulheres com artralgia por inibidor de aromatase, a testosterona não alterou a intensidade da dor, mas trouxe ganhos modestos de força.
  • Terapia não hormonal. Os antagonistas do receptor de neurocinina, como o fezolinetanto, tratam os sintomas vasomotores. A cefaleia é um efeito adverso conhecido, e ainda faltam dados sobre o efeito na enxaqueca.
  • Movimento como tratamento. O treino de força tem papel central diante da perda acelerada de massa muscular. Associada ao treino, a creatina melhorou força, massa muscular e qualidade de vida na osteoartrite.
  • Nutracêuticos com critério. Ômega 3, glucosamina, condroitina e vitamina D têm benefícios em populações selecionadas, e a vitamina D funciona sobretudo em quem tem deficiência. A prescrição deve partir da avaliação individual.
  • Sono e saúde mental entram no plano. O sono ruim aumenta a sensibilidade à dor, e a dor fragmenta o sono. Terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e respiração ritmada têm evidência moderada.

O QUE FICA

A dor crônica da mulher na meia-idade é frequente, sobreposta e ainda atendida de forma fragmentada, entre a ginecologia, a reumatologia, a neurologia, a psiquiatria e a clínica de dor. O White Paper de 2026 pede uma lente de gênero na pesquisa, um cuidado multidisciplinar e uma abordagem culturalmente sensível. A menopausa não é a causa de toda dor, mas muda o terreno biológico em que ela se instala e se mantém. Ler a dor dentro da transição é o que transforma um sintoma isolado em diagnóstico.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIA

Mailis A, Ang SB, Di Renna T, Marks Kazatsker M, MacGregor EA, Misasi G, Poli J, Simoncini T, Wolfman W, Nappi RE. Chronic pain at midlife. Climacteric. 2026. doi:10.1080/13697137.2026.2722558.

Artigo completo: https://doi.org/10.1080/13697137.2026.2722558

Base: White Paper 2026 da International Menopause Society.

A perimenopausa chega no auge da carreira. E a consulta precisa saber disso.

20 de outubro de 2026
Dra. Fabiane Berta, fundadora do MYPAUSA

Dados da Mayo Clinic e do estudo australiano AMY quantificam o impacto dos sintomas da transição sobre o trabalho e deslocam o cuidado da menopausa do campo do conforto para o campo da permanência profissional.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • Entre 4.440 mulheres empregadas de 45 a 60 anos, 13,4% relataram ao menos um desfecho negativo no trabalho atribuído aos sintomas da menopausa. Sintomas mais intensos multiplicaram por 15,6 a chance desse desfecho.
  • Nos Estados Unidos, o custo estimado é de US$ 1,8 bilhão por ano em dias de trabalho perdidos, e de US$ 26,6 bilhões quando somados os custos médicos.
  • A perimenopausa começa antes do que os critérios clássicos previam, e boa parte das mulheres atravessa a fase de maior intensidade de sintomas sem tratamento, justamente no período de maior responsabilidade profissional.

UM CUSTO QUE NÃO APARECE NO EXAME

A avaliação clínica da menopausa costuma se concentrar no que a transição faz com o corpo: ondas de calor, sono, osso, perfil cardiometabólico. Um outro desfecho, menos visível no consultório, começa a ser medido com precisão: o impacto sobre a vida profissional. Mais de 1 bilhão de mulheres no mundo estão hoje na menopausa, e uma parcela crescente delas atravessa essa fase ocupando posições de gestão e liderança.

O QUE A MAYO CLINIC MEDIU

No estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings em 2023, 32.469 mulheres de 45 a 60 anos, atendidas na atenção primária em quatro unidades da instituição, foram convidadas a responder a um questionário. Das 5.219 respondentes, 4.440 estavam empregadas e compuseram a análise, com idade média de 53,9 anos. Os sintomas foram avaliados pela Menopause Rating Scale. Os achados:

  • 13,4% relataram ao menos um desfecho negativo no trabalho atribuído aos sintomas, entre faltas, redução de jornada, demissão, saída do emprego, mudança de função ou aposentadoria;
  • 485 mulheres faltaram ao trabalho no último ano por causa dos sintomas;
  • as mulheres no quartil de maior gravidade de sintomas tiveram chance 15,6 vezes maior de desfecho negativo do que as do quartil de menor gravidade;
  • o custo estimado foi de US$ 1,8 bilhão por ano em dias de trabalho perdidos e de US$ 26,6 bilhões somando os custos médicos.

Os autores destacam que o impacto atravessa níveis hierárquicos e que o estigma ainda leva muitas mulheres a não revelar os sintomas no ambiente de trabalho.

A TRANSIÇÃO COMEÇA ANTES

O Australian Women’s Midlife Years Study (AMY), uma amostra nacionalmente representativa de 8.096 mulheres de 40 a 69 anos, reforça a dimensão do problema. Entre as 5.509 participantes com fase menopausal definida, sintomas vasomotores de início recente associados à mudança no fluxo menstrual já marcaram a perimenopausa, mesmo com ciclos ainda regulares. Na perimenopausa tardia, quase 40% das mulheres conviviam com sintomas vasomotores moderados a graves sem tratamento.

O AMY também incluiu a avaliação do trabalho pago e não pago, uma dimensão frequentemente ignorada: na meia-idade, muitas mulheres acumulam a carreira com o cuidado de filhos e de pais. Os dados de trabalho do estudo foram apresentados no Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, em 2026, e ainda aguardam publicação completa.

Um levantamento australiano anterior já havia mostrado que, quanto mais frequentes e incômodos os sintomas, menor o engajamento e a satisfação no trabalho, e maior a intenção de deixar o emprego.

A LEITURA BRASILEIRA

O Brasil já tem uma primeira estimativa: segundo o Instituto Esfera de Estudos e Inovação, cerca de 29 milhões de brasileiras estão no climatério ou na pós-menopausa, 63% delas economicamente ativas, e os sintomas podem gerar perdas superiores a R$ 2 bilhões por ano em produtividade. Num país em que a mulher na meia-idade divide a carreira com a sustentação econômica e o cuidado da família, esses números são ao mesmo tempo um dado de saúde e um dado de política de trabalho.

AS NORMAS CHEGARAM

Em setembro de 2026, a International Organization for Standardization publicou a ISO 45010, a primeira norma internacional com orientações para apoiar a menstruação e a menopausa no trabalho. No Brasil, desde maio de 2026, a NR-1 inclui os fatores de riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança das empresas. A ISO 45010 deixa explícito que não traz orientação médica, e é justamente nessa lacuna que o cuidado clínico se torna indispensável.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • A anamnese precisa incluir a vida profissional. Sono, concentração, faltas e desempenho são desfechos clínicos, e não apenas queixas.
  • A gravidade dos sintomas importa. O risco de impacto profissional cresce de forma marcante com a intensidade, o que reforça a necessidade de instrumentos de avaliação estruturados.
  • A perimenopausa precisa ser reconhecida mais cedo, inclusive em mulheres que ainda menstruam regularmente.
  • A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, com opções não hormonais quando indicado. Tratar a transição passa a ser também uma intervenção de permanência profissional.

O QUE FICA

A perimenopausa não chega na aposentadoria. Ela chega no auge da carreira. Por isso, a pergunta clínica precisa ir além do sintoma e alcançar o que essa transição está custando à vida que a mulher construiu.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Faubion SS, Enders F, Hedges MS, et al. Impact of menopause symptoms on women in the workplace. Mayo Clin Proc. 2023;98(6):833-45.

2. Ahmed SB, Hardcastle L. Menopause: time for a paradigm shift. Mayo Clin Proc. 2023;98(6):818-20.

3. Islam RM, Bond M, Ghalebeigi A, Wang Y, Walker-Bone K, Davis SR. Prevalence and severity of symptoms across the menopause transition: cross-sectional findings from the Australian Women’s Midlife Years (AMY) Study. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(9):765-76.

4. Jack G, Pitts M, Riach K, et al. Women, Work and the Menopause: releasing the potential of older professional women. Melbourne: La Trobe University; 2014.

5. Instituto Esfera de Estudos e Inovação. A força invisível da economia: mulheres na menopausa e o futuro do trabalho no Brasil. 2026.

6. International Organization for Standardization. ISO 45010:2026. Occupational health and safety management: menstruation and menopause in the workplace. Guidance.

7. The Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement. Menopause. 2022;29(7):767-94.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.

A menopausa latino-americana tem CEP

18 de outubro de 2026
Imagem editorial de mulheres maduras reunidas em um momento de convivência

Dados da América Latina e do Brasil mostram que a idade da menopausa, o acesso ao tratamento e o peso da saúde mental variam conforme o território. No Dia Mundial da Menopausa, a pergunta que se impõe é: quem é a menopausa no Brasil?

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • Na América Latina, a idade mediana da menopausa é de 48,6 anos, mas varia de 43,8 a 53 anos conforme a cidade, com influência de altitude, escolaridade e renda.
  • No Brasil, 92,97% das mulheres de 40 a 65 anos têm pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal, e cerca de 55% das sintomáticas na pós-menopausa nunca a utilizaram.
  • O primeiro diagnóstico de depressão na pós-menopausa surge, em média, aos 43 anos, em plena transição, com carga maior no Centro-Oeste.

A IDADE TEM ENDEREÇO

A rede latino-americana REDLINC avaliou 17.150 mulheres de 40 a 59 anos em 47 cidades de 15 países. A idade mediana da menopausa foi de 48,6 anos, com variação de 43,8 anos em Assunção a 53 anos em Cartagena. Mulheres que viviam a 2.000 metros de altitude ou mais, com menor escolaridade ou em países de menor renda tiveram cerca de duas vezes mais chance de menopausa mais precoce. Para os autores, entre eles Juan Blümel e Peter Chedraui, as condições socioeconômicas participam do início da menopausa.

O CONHECIMENTO E O USO

Um estudo transversal da UFMG e da USP aplicou a metodologia de conhecimentos, atitudes e práticas, proposta pela Organização Mundial da Saúde, a 1.139 brasileiras de 40 a 65 anos, incluindo entrevistas presenciais no sistema público. Os achados:

  • 92,97% tinham pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal;
  • só 30,3% estavam plenamente satisfeitas com a informação recebida;
  • 27% desconheciam a terapia hormonal, e 22% eram contrárias ao uso;
  • entre as mulheres na pós-menopausa, 29,32% usavam terapia hormonal, e cerca de 55% das sintomáticas nunca a utilizaram;
  • 68,46% relataram secura vaginal, 48,65% dor na relação e 51,35% perda de urina durante a atividade física;
  • o não uso foi de 62,59% no sistema público e de 49,78% no privado.

Os autores concluem que ampliar a informação para as mulheres e a formação dos profissionais de saúde é o caminho para que a terapia hormonal alcance quem dela se beneficia.

O ACESSO

Em pesquisa com ginecologistas brasileiros publicada em 2026, 76,5% dos que atuam no sistema público e no privado relataram prescrever mais terapia hormonal no consultório privado. No sistema público, as principais barreiras foram o custo do tratamento (68,2%) e a falta de medicação gratuita (61,4%). No privado, a preocupação com os riscos (93,6%), sobretudo o câncer.

A SAÚDE MENTAL

Na análise de 15.734 brasileiras da Pesquisa Nacional de Saúde, a prevalência de depressão foi semelhante na fase reprodutiva e na pós-menopausa, de 15,4% e 15,6%. O que mudou foi o cuidado: na pós-menopausa, 74% das mulheres com depressão eram tratadas com medicação, e 16,7% faziam psicoterapia. O primeiro diagnóstico surgiu, em média, aos 43 anos, com cerca de metade dos casos entre os 40 e os 54 anos, e a maior carga foi observada no Centro-Oeste.

A RESPOSTA DA REGIÃO

No Peru, um instrumento de seis perguntas dicotômicas, sobre ciclo menstrual, fogachos, saúde sexual, bexiga, sono e humor, foi validado para a atenção primária. Aplicado em cerca de dois minutos, ele indica encaminhamento especializado a partir de quatro respostas positivas. Simplicidade e validação caminham juntas quando o objetivo é alcançar mais mulheres.

A LEITURA BRASILEIRA

A ciência internacional é sólida, mas foi construída sem DNA brasileiro. Os dados da região mostram que a biologia da menopausa é universal e que a forma de vivê-la depende do território, da escola, da renda e do sistema de saúde. Cinco regiões, 27 estados, um país continente e um único DNA, o brasileiro. A menopausa do Brasil não é uma. São mulheridades.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • Perguntar ativamente pelos sintomas a partir dos 40 anos, incluindo sono, humor e saúde geniturinária
  • Incluir o contexto social na anamnese: trabalho, cuidado da família, acesso e custo
  • Comunicar riscos em números absolutos, que dão à mulher uma noção real de cada decisão
  • Reavaliar a terapia hormonal periodicamente, com decisão compartilhada sobre continuidade
  • Construir um plano possível para aquela mulher, com as opções que ela consegue acessar

O QUE FICA

Quem é a menopausa no Brasil? A resposta não cabe em uma média. Ela tem sotaque, tem CEP e tem território hormonal, e é com esse olhar que a medicina brasileira está construindo o seu próprio caminho.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Blümel JE, Chedraui P, Calle A, et al. Age at menopause in Latin America. Menopause. 2006;13(4):706-12.

2. Rodrigues MAH, Reis ZSN, Verona APA, et al. Climacteric women’s perspectives on menopause and hormone therapy: knowledge gaps, fears, and the role of healthcare advice. PLoS One. 2025;20(5):e0316873.

3. Pompei IM, Magdalena SLA, Arimura VS, et al. Is the patients’ fear of cancer the main barrier to prescribing menopausal hormone therapy? Climacteric. 2026;29(2):227-30.

4. Matzumura-Kasano JP, Gutiérrez-Crespo HF, Wong Mac JI, Alamo-Palomino IJ. Instrumento para la evaluación del climaterio y la menopausia en el primer nivel de atención. Rev Fac Med Hum. 2020;20(4):560-7.

5. Berta de Sousa F. Impacto do climatério na saúde mental de mulheres brasileiras: rastreamento nacional de depressão. Dissertação de mestrado. São Paulo: EPM/UNIFESP; 2026.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.

Fogacho sem hormônio: o que as revisões de 2025 e 2026 sustentam

13 de outubro de 2026
Mulheres maduras reunidas em um momento de convivência

No Outubro Rosa, a evidência para tratar o fogacho de quem não pode usar a terapia hormonal se reorganiza: a terapia cognitivo-comportamental na base, medicações conhecidas no meio e uma nova classe, ainda à espera de dados específicos em sobreviventes de câncer de mama.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • Entre 65% e 85% das mulheres tratadas para câncer de mama têm fogachos e suores noturnos, e o sintoma pode comprometer o sono, a qualidade de vida e a adesão à hormonioterapia.
  • Revisões de 2025 posicionam a terapia cognitivo-comportamental como primeira linha, com evidência alta, e a hipnose, as medicações não hormonais e os antagonistas de neurocinina como alternativas com evidência de moderada a baixa.
  • O fezolinetanto foi aprovado pela Anvisa em 22/06/2026, mas ainda não tem estudo de fase 3 específico em mulheres com câncer de mama. Seu posicionamento nessas pacientes depende dos estudos em andamento.

QUEM PRECISA DESSA RESPOSTA

Tamoxifeno e inibidores da aromatase estão entre as causas do fogacho em sobreviventes de câncer de mama, e os sintomas costumam ser mais intensos e duradouros do que na menopausa natural. Como a terapia hormonal da menopausa não é indicada na maioria dessas mulheres, os não hormonais são a base do tratamento. A relevância vai além do conforto: o sintoma prejudica o sono e pode pesar na continuidade da hormonioterapia, que reduz o risco de recidiva.

ONDE O FOGACHO NASCE

No hipotálamo, os neurônios KNDy regulam a temperatura do corpo. Com a flutuação do estrogênio, a neurocinina B hiperativa esse circuito e dispara o fogacho. A neuromodulação desse termostato foi tema de sessão no Congresso Mundial de Menopausa, ao lado das opções comportamentais e da saúde das sobreviventes.

O QUE A EVIDÊNCIA SUSTENTA, EM CAMADAS

Sem receita. No estudo MENOS 1, com 96 mulheres após o tratamento do câncer de mama, seis sessões semanais de terapia cognitivo-comportamental em grupo reduziram o incômodo dos fogachos e melhoraram humor e sono. Em ensaio com 60 sobreviventes, cinco sessões de hipnose clínica reduziram em 68% o escore dos fogachos, em comparação com nenhum tratamento. Por ser um estudo pequeno e sem placebo, uma revisão de 2025 gradua a evidência da hipnose como moderada a baixa.

Medicações não hormonais. Antidepressivos ISRS e IRSN, gabapentina e oxibutinina têm evidência. Em levantamento de vida real nos Estados Unidos e na Europa, venlafaxina (24,7%), citalopram (16,5%) e paroxetina (13,6%) foram as mais prescritas. A paroxetina e a fluoxetina inibem a CYP2D6 e reduzem a ativação do tamoxifeno, e devem ser evitadas nessa combinação.

Antagonistas de neurocinina. O fezolinetanto bloqueia o receptor NK3 e não repõe estrogênio. No SKYLIGHT 1, com 527 mulheres, 45 mg reduziram a frequência dos fogachos em 61%, contra 35% com placebo, em 12 semanas, cerca de 2,5 episódios a menos por dia. Na análise de mulheres inadequadas para a terapia hormonal, 60,6% alcançaram redução de pelo menos metade dos fogachos, contra 35,7% com placebo. O DAYLIGHT confirmou a eficácia em 453 mulheres desse perfil, em 24 semanas, com efeito já no primeiro dia. A função hepática deve ser monitorada. Uma revisão de 2025 lembra que o benefício foi demonstrado em mulheres sem história de câncer de mama, e uma de 2026 aponta que o posicionamento do fezolinetanto nessas pacientes depende de estudos específicos em andamento.

A LEITURA BRASILEIRA

Segundo dados divulgados pela fabricante na aprovação, 36,2% das brasileiras de 40 a 65 anos têm fogachos moderados a intensos, contra 15,6% da média global. A disponibilidade nas farmácias depende da definição de preço pela CMED. As opções sem receita, em contrapartida, podem ser incorporadas aos serviços de oncologia, inclusive conduzidas por enfermeiras treinadas, como propõem os autores do MENOS 1.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • Perguntar ativamente pelo fogacho, inclusive o noturno, em toda mulher em hormonioterapia
  • Decidir a conduta junto com o oncologista e checar interações, sobretudo com o tamoxifeno
  • Considerar a terapia cognitivo-comportamental como base do plano, associada ao que for indicado
  • Fora do câncer de mama, a terapia hormonal segue como o tratamento mais eficaz para o fogacho. Para quem não pode usá-la, existe agora um caminho estruturado, com lacunas que a pesquisa ainda precisa fechar

O QUE FICA

O Outubro Rosa pede que o cuidado com a sobrevivente inclua as noites. O alvo não é o ovário. É o termostato.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Mann E, Smith MJ, Hellier J, et al. Cognitive behavioural treatment for women who have menopausal symptoms after breast cancer treatment (MENOS 1): a randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2012;13(3):309-18.

2. Elkins G, Marcus J, Stearns V, et al. Randomized trial of a hypnosis intervention for treatment of hot flashes among breast cancer survivors. J Clin Oncol. 2008;26(31):5022-6.

3. Lederman S, Ottery FD, Cano A, et al. Fezolinetant for treatment of moderate-to-severe vasomotor symptoms associated with menopause (SKYLIGHT 1). Lancet. 2023;401(10382):1091-102.

4. Santoro N, Neal-Perry G, Stute P, et al. Fezolinetant effect on vasomotor symptoms due to menopause in women unsuitable for hormone therapy. Curr Med Res Opin. 2025;41:375-84.

5. Schaudig K, Wang X, Bouchard C, et al. Efficacy and safety of fezolinetant in individuals unsuitable for hormone therapy (DAYLIGHT). BMJ. 2024;387:e079525.

6. The Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement. Menopause. 2023;30(6):573-90.

7. Hamnvik OPR, et al. Management of vasomotor symptoms in cancer patients. Oncologist. 2025;30(2):oyaf002.

8. Aromatase inhibitors as adjuvant therapy in early breast cancer: insights into toxicities and their management. Cancers. 2025;17(17):2726.

9. Practical considerations and emerging approaches for the management of vasomotor and sexual symptoms in breast cancer patients on endocrine therapies. Expert Rev Clin Pharmacol. 2025;18(10).

10. Neurokinin pathway antagonists for vasomotor symptoms in women with breast cancer: focus on elinzanetant and fezolinetant. 2026.

11. Treatment utilization and non-drug interventions for vasomotor symptoms in breast cancer survivors taking endocrine therapy: real-world findings from the United States and Europe. Maturitas. 2024.

12. Astellas Farma. Comunicado da aprovação do fezolinetanto pela Anvisa. 22 de junho de 2026.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.

O fogacho noturno deixou de ser sintoma. Passou a ser sinal.

8 de outubro de 2026
Mulher madura em uma pausa à beira-mar

Coortes de longo prazo e estudos com monitorização fisiológica associam os sintomas vasomotores, sobretudo os do sono, ao risco cardiovascular e à saúde cerebrovascular da mulher. O achado reposiciona o fogacho na anamnese e na prescrição.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • No estudo SWAN, com mais de 20 anos de seguimento, sintomas vasomotores frequentes e persistentes se associaram a 51% a 77% mais risco de eventos cardiovasculares, sem explicação pelos fatores de risco clássicos nem pelos níveis de estradiol.
  • Medidos por monitorização fisiológica, os fogachos do sono se associam a maior volume de hiperintensidades da substância branca e a um perfil plasmático menos favorável de beta-amiloide.
  • A terapia hormonal segue como o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores. A hipótese de que tratar o fogacho noturno proteja coração e cérebro é uma perspectiva em construção.

DE DESCONFORTO A MARCADOR

Durante décadas, os sintomas vasomotores foram tratados como manifestação transitória e benigna da transição menopausal. Dois movimentos da pesquisa mudaram essa leitura: o seguimento prolongado de grandes coortes e a substituição do relato subjetivo por monitores fisiológicos de condutância da pele, capazes de registrar cada episódio ao longo de 24 horas, inclusive durante o sono.

A diferença de método importa. Ainda em 2016, um estudo com monitorização fisiológica mostrou que mais fogachos registrados durante o sono se associavam a maior carga de hiperintensidades da substância branca, enquanto os fogachos relatados pelas próprias mulheres não mostravam essa relação. O que é medido com precisão revela o que o relato não alcança.

UM SINTOMA MAIS LONGO DO QUE SE SUPUNHA

No Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN), os sintomas vasomotores frequentes duraram, em mediana, 7,4 anos, e persistiram por 4,5 anos após a última menstruação. Mulheres em que os sintomas começaram mais cedo na transição tiveram a maior duração. A frequência também varia entre populações: nos Estados Unidos, a proporção de mulheres com sintomas vasomotores foi de cerca de 50% entre as de origem japonesa a 80% entre as afro-americanas.

O CORAÇÃO

A mesma coorte acompanhou mulheres por mais de 20 anos e registrou 231 eventos cardiovasculares, entre infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e revascularização. Os achados:

  • sintomas vasomotores frequentes no início do seguimento se associaram a risco 51% maior de eventos cardiovasculares;
  • a persistência de sintomas frequentes ao longo dos anos elevou essa associação para até 77%;
  • as associações se mantiveram após ajuste para os fatores de risco cardiovascular clássicos e não foram explicadas pelos níveis de estradiol endógeno.

Os autores propõem que os sintomas vasomotores possam representar um fator de risco cardiovascular específico da mulher. A coorte também já havia associado sintomas frequentes a pressão arterial mais elevada e a perfis de risco menos favoráveis.

O CÉREBRO

Em 2023, um estudo com 226 mulheres de 45 a 67 anos, sem terapia hormonal, combinou monitorização de 24 horas, actigrafia para delimitar sono e vigília, e ressonância magnética. As participantes tiveram, em média, 5 episódios por dia, cerca de 3 em vigília e 2 durante o sono.

  • Os sintomas vasomotores medidos fisiologicamente se associaram a maior volume de hiperintensidades da substância branca, marcador de doença de pequenos vasos cerebrais.
  • A associação mais forte foi a dos episódios durante o sono, com impacto estimado de cerca de 6% a mais de volume de lesão para cada episódio noturno adicional.
  • As associações apareceram nas regiões profunda, periventricular e frontal, e não foram explicadas pela fragmentação do sono medida por actigrafia.

Em 2024, a mesma linha de pesquisa avançou para os biomarcadores. Em 248 mulheres no fim da perimenopausa e na pós-menopausa, com fogachos registrados por sensor, os episódios noturnos se associaram a um perfil plasmático menos favorável de beta-amiloide, após ajuste para idade, etnia, escolaridade, índice de massa corporal e genótipo APOE4. Para os autores, o fogacho noturno pode marcar as mulheres com maior risco de doença de Alzheimer.

POR QUE A NOITE?

O mecanismo ainda está sendo desenhado. As hipóteses mais estudadas apontam para a resposta vascular e autonômica que acompanha cada episódio e que também se expressa na circulação cerebral. O fato de as associações se manterem mesmo após considerar a qualidade do sono sugere um efeito próprio do fogacho noturno, além da simples fragmentação do descanso.

A LEITURA BRASILEIRA

A maior parte dessas evidências vem de coortes norte-americanas, e a própria SWAN mostra que frequência e duração dos sintomas variam entre populações. Num país de matriz tão miscigenada e de realidades regionais tão distintas, a intensidade, a duração e o peso clínico do fogacho não podem ser presumidos a partir de amostras estrangeiras. A anamnese brasileira precisa perguntar, medir e registrar.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • A pergunta precisa chegar à noite. Frequência, intensidade e, especificamente, os episódios durante o sono.
  • O fogacho frequente e persistente é sinal para rastrear o risco cardiovascular, com atenção a pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e composição corporal.
  • A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, com indicação individualizada a partir do perfil de cada mulher.
  • Quando a terapia hormonal não é indicada ou desejada, há opções não hormonais com evidência, incluindo os antagonistas do receptor de neurocinina 3 e as abordagens comportamentais.
  • A proteção do coração e do cérebro pelo tratamento do fogacho noturno é uma perspectiva em construção, e é exatamente essa a pergunta que os próximos ensaios precisam responder.

O QUE FICA

O fogacho noturno deixou de ser apenas o calor que interrompe o sono. É um sinal que conversa com o coração, com os vasos e com o cérebro, e que pede leitura clínica, e não resignação. Na flutuação do estradiol, o corpo avisa antes de adoecer.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Thurston RC, Aslanidou Vlachos HE, Derby CA, et al. Menopausal vasomotor symptoms and risk of incident cardiovascular disease events in SWAN. J Am Heart Assoc. 2021;10(3):e017416.

2. Thurston RC, Wu M, Chang YF, et al. Menopausal vasomotor symptoms and white matter hyperintensities in midlife women. Neurology. 2023;100(2):e133-41.

3. Thurston RC, Maki P, Chang Y, et al. Menopausal vasomotor symptoms and plasma Alzheimer disease biomarkers. Am J Obstet Gynecol. 2024;230(3):342.e1-8.

4. Thurston RC, Aizenstein HJ, Derby CA, Sejdic E, Maki PM. Menopausal hot flashes and white matter hyperintensities. Menopause. 2016;23(1):27-32.

5. Avis NE, Crawford SL, Greendale G, et al. Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition. JAMA Intern Med. 2015;175(4):531-9.

6. The Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-94.

7. The Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023;30(6):573-90.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.

Na menopausa, a testosterona tem o seu próprio tempo

6 de outubro de 2026
Mulher madura em um campo aberto

Dados de alta precisão do Australian Women’s Midlife Years Study mostram que a testosterona da mulher acompanha a idade, e não a transição menopausal. O achado reorganiza a forma de ler o exame e de construir a indicação.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

  • Em mulheres de 40 a 69 anos, a testosterona declina com a idade, chega ao ponto mais baixo por volta dos 58 a 59 anos e volta a subir levemente. A menopausa natural não altera essa curva.
  • O estradiol marca a transição; a testosterona segue um relógio próprio. Por isso, a fase menopausal não é o critério que orienta a prescrição de androgênios.
  • A indicação consolidada é o transtorno do desejo sexual hipoativo. Humor, cognição, energia, osso e músculo formam um campo de evidência em construção, que já ocupa a agenda científica internacional.

A PERGUNTA QUE VOLTOU AO CENTRO

“Androgênios: devem ser o terceiro componente da terapia hormonal?” A pergunta foi tema de um Meet the Expert no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, em 2026. Ela resume um debate que saiu das redes sociais e chegou aos consultórios: a testosterona como peça da terapia hormonal da mulher na menopausa. A resposta científica começa por um ponto anterior: entender como a testosterona se comporta na maturidade feminina.

POR QUE A RESPOSTA DEMOROU

Durante décadas, os estudos sobre androgênios na meia-idade feminina esbarraram em limitações de método. Incluíam mulheres em uso de terapias que alteram a produção de esteroides sexuais, classificavam a fase menopausal de forma pouco confiável, usavam imunoensaios com baixa sensibilidade e precisão nas concentrações típicas da mulher e nem sempre ajustavam para fatores como índice de massa corporal e tabagismo. O resultado era uma pergunta antiga sem resposta definitiva.

Ainda assim, havia sinais. Um estudo australiano de 2005, com cerca de 1.400 mulheres, já descrevia um declínio gradual da testosterona desde a terceira década de vida, sem mudança associada à menopausa natural, e concentrações menores após a retirada dos dois ovários.

O QUE O AMY MOSTROU

O Australian Women’s Midlife Years Study (AMY) recrutou uma amostra nacionalmente representativa de 8.096 mulheres de 40 a 69 anos. Testosterona, androstenediona e desidroepiandrosterona (DHEA) foram dosadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, o método de maior precisão para concentrações baixas. A fase menopausal seguiu os critérios do Stages of Reproductive Aging Workshop (STRAW+10).

Após excluir mulheres sem classificação de fase, com disfunção tireoidiana, hiperprolactinemia, ooforectomia bilateral ou gestação não informada, a análise principal incluiu 1.104 participantes. Os achados centrais:

  • a testosterona declina a partir dos 40 anos, atinge o ponto mais baixo por volta dos 58 a 59 anos e apresenta leve elevação depois disso;
  • a menopausa natural não altera essa trajetória;
  • androstenediona e DHEA diminuem 51% e 33% entre os 40 e os 69 anos;
  • na faixa de 48 a 53 anos, quando mulheres de mesma idade estão em fases diferentes, testosterona e DHEA não variaram com a fase; apenas a androstenediona foi maior na pré-menopausa.

Na mesma coorte, a disfunção sexual atingiu cerca de 1 em cada 4 mulheres, e as dificuldades de desejo e de excitação dobraram no início da perimenopausa. Após ajuste para fatores de confusão, o desejo sexual não se associou à testosterona circulante, enquanto orgasmo e excitação mostraram associações que variaram conforme a fase menopausal, o que reforça a natureza multifatorial da função sexual na transição.

DOIS HORMÔNIOS, DOIS RELÓGIOS

A transição menopausal é definida pela flutuação e pela redução do estradiol, que sustenta o terreno biológico de múltiplos sistemas nessa fase. A testosterona responde a outro relógio, o da idade. Essa dissociação tem consequência prática: a fase menopausal não é o gatilho da indicação de androgênios. O que orienta a decisão é o quadro clínico de cada mulher.

Vale lembrar que parte da testosterona circulante é convertida em estradiol nos tecidos periféricos. Androgênios e estrogênios não competem pelo protagonismo: dialogam dentro da mesma fisiologia.

A LEITURA BRASILEIRA

Um retrato brasileiro equivalente, com amostra nacional e dosagem de alta precisão, ainda é uma lacuna. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial reconhece a espectrometria de massas como padrão-ouro para a dosagem de testosterona em mulheres e alerta que os imunoensaios, mais acessíveis, podem carecer de acurácia nas concentrações femininas. Num país continental, com perfis metabólicos e acessos tão distintos entre as regiões, a individualização deixa de ser preferência e passa a ser método.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

  • O exame informa, a consulta indica. O Consenso Global sobre testosterona na mulher não recomenda o uso da dosagem para diagnosticar o transtorno do desejo sexual hipoativo. A indicação nasce da avaliação clínica.
  • A indicação consolidada é o desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após investigação dos demais fatores envolvidos.
  • Humor, cognição, energia, osso e músculo formam um campo de evidência em construção. O próprio grupo do AMY publicou, em 2026, análise sobre testosterona e desempenho cognitivo em mulheres mais velhas, e novas perspectivas foram discutidas no Congresso Mundial.
  • No acompanhamento, a dosagem tem lugar: a referência de segurança é manter a concentração na faixa fisiológica da pré-menopausa, com reavaliação clínica periódica da resposta.
  • O estradiol segue no centro da transição. A testosterona entra quando há indicação clínica, como parte de uma prescrição construída para aquela mulher.

O QUE FICA

A testosterona da mulher acompanha a idade, e não a menopausa. Por isso, a pergunta clínica deixa de ser qual o número e passa a ser qual o sintoma, qual a mulher e qual o objetivo. Cada hormônio tem o seu tempo. E a sua prescrição.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Wang Y, Islam RM, Bond M, Davis SR. Testosterone and pre-androgens by age and menopausal stage at midlife: findings from a cross-sectional study. eBioMedicine. 2025;121:105972.

2. Wang Y, et al. Sexual dysfunction in women at midlife: findings from the Australian Women’s Midlife Years Study. Lancet Obstet Gynaecol Women’s Health. 2025;1(3):e198-208.

3. Wang Y, et al. Associations between testosterone and pre-androgens and sexual function in midlife women. Fertil Steril. 2026;126(3):534-44.

4. Davison SL, Bell R, Donath S, Montalto JG, Davis SR. Androgen levels in adult females: changes with age, menopause, and oophorectomy. J Clin Endocrinol Metab. 2005;90(7):3847-53.

5. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Climacteric. 2019;22(5):429-34.

6. Harlow SD, Gass M, Hall JE, et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop + 10. Menopause. 2012;19(4):387-95.

7. Sultana F, Islam RM, Davis SR. Associations between declining testosterone concentrations and cognitive performance in community-dwelling older Australian women: a prospective cohort study. Climacteric. 2026;29(1):46-52.

8. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial. Posicionamento oficial sobre a dosagem de testosterona em mulheres.

9. Davis SR. Androgens: should they be the third component in MHT? Meet the Expert. 20th IMS World Congress on Menopause; 2026.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.

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