Dados da América Latina e do Brasil mostram que a idade da menopausa, o acesso ao tratamento e o peso da saúde mental variam conforme o território. No Dia Mundial da Menopausa, a pergunta que se impõe é: quem é a menopausa no Brasil?
Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126
EM 3 PONTOS
- Na América Latina, a idade mediana da menopausa é de 48,6 anos, mas varia de 43,8 a 53 anos conforme a cidade, com influência de altitude, escolaridade e renda.
- No Brasil, 92,97% das mulheres de 40 a 65 anos têm pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal, e cerca de 55% das sintomáticas na pós-menopausa nunca a utilizaram.
- O primeiro diagnóstico de depressão na pós-menopausa surge, em média, aos 43 anos, em plena transição, com carga maior no Centro-Oeste.
A IDADE TEM ENDEREÇO
A rede latino-americana REDLINC avaliou 17.150 mulheres de 40 a 59 anos em 47 cidades de 15 países. A idade mediana da menopausa foi de 48,6 anos, com variação de 43,8 anos em Assunção a 53 anos em Cartagena. Mulheres que viviam a 2.000 metros de altitude ou mais, com menor escolaridade ou em países de menor renda tiveram cerca de duas vezes mais chance de menopausa mais precoce. Para os autores, entre eles Juan Blümel e Peter Chedraui, as condições socioeconômicas participam do início da menopausa.
O CONHECIMENTO E O USO
Um estudo transversal da UFMG e da USP aplicou a metodologia de conhecimentos, atitudes e práticas, proposta pela Organização Mundial da Saúde, a 1.139 brasileiras de 40 a 65 anos, incluindo entrevistas presenciais no sistema público. Os achados:
- 92,97% tinham pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal;
- só 30,3% estavam plenamente satisfeitas com a informação recebida;
- 27% desconheciam a terapia hormonal, e 22% eram contrárias ao uso;
- entre as mulheres na pós-menopausa, 29,32% usavam terapia hormonal, e cerca de 55% das sintomáticas nunca a utilizaram;
- 68,46% relataram secura vaginal, 48,65% dor na relação e 51,35% perda de urina durante a atividade física;
- o não uso foi de 62,59% no sistema público e de 49,78% no privado.
Os autores concluem que ampliar a informação para as mulheres e a formação dos profissionais de saúde é o caminho para que a terapia hormonal alcance quem dela se beneficia.
O ACESSO
Em pesquisa com ginecologistas brasileiros publicada em 2026, 76,5% dos que atuam no sistema público e no privado relataram prescrever mais terapia hormonal no consultório privado. No sistema público, as principais barreiras foram o custo do tratamento (68,2%) e a falta de medicação gratuita (61,4%). No privado, a preocupação com os riscos (93,6%), sobretudo o câncer.
A SAÚDE MENTAL
Na análise de 15.734 brasileiras da Pesquisa Nacional de Saúde, a prevalência de depressão foi semelhante na fase reprodutiva e na pós-menopausa, de 15,4% e 15,6%. O que mudou foi o cuidado: na pós-menopausa, 74% das mulheres com depressão eram tratadas com medicação, e 16,7% faziam psicoterapia. O primeiro diagnóstico surgiu, em média, aos 43 anos, com cerca de metade dos casos entre os 40 e os 54 anos, e a maior carga foi observada no Centro-Oeste.
A RESPOSTA DA REGIÃO
No Peru, um instrumento de seis perguntas dicotômicas, sobre ciclo menstrual, fogachos, saúde sexual, bexiga, sono e humor, foi validado para a atenção primária. Aplicado em cerca de dois minutos, ele indica encaminhamento especializado a partir de quatro respostas positivas. Simplicidade e validação caminham juntas quando o objetivo é alcançar mais mulheres.
A LEITURA BRASILEIRA
A ciência internacional é sólida, mas foi construída sem DNA brasileiro. Os dados da região mostram que a biologia da menopausa é universal e que a forma de vivê-la depende do território, da escola, da renda e do sistema de saúde. Cinco regiões, 27 estados, um país continente e um único DNA, o brasileiro. A menopausa do Brasil não é uma. São mulheridades.
O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO
- Perguntar ativamente pelos sintomas a partir dos 40 anos, incluindo sono, humor e saúde geniturinária
- Incluir o contexto social na anamnese: trabalho, cuidado da família, acesso e custo
- Comunicar riscos em números absolutos, que dão à mulher uma noção real de cada decisão
- Reavaliar a terapia hormonal periodicamente, com decisão compartilhada sobre continuidade
- Construir um plano possível para aquela mulher, com as opções que ela consegue acessar
O QUE FICA
Quem é a menopausa no Brasil? A resposta não cabe em uma média. Ela tem sotaque, tem CEP e tem território hormonal, e é com esse olhar que a medicina brasileira está construindo o seu próprio caminho.
Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.
REFERÊNCIAS
1. Blümel JE, Chedraui P, Calle A, et al. Age at menopause in Latin America. Menopause. 2006;13(4):706-12.
2. Rodrigues MAH, Reis ZSN, Verona APA, et al. Climacteric women’s perspectives on menopause and hormone therapy: knowledge gaps, fears, and the role of healthcare advice. PLoS One. 2025;20(5):e0316873.
3. Pompei IM, Magdalena SLA, Arimura VS, et al. Is the patients’ fear of cancer the main barrier to prescribing menopausal hormone therapy? Climacteric. 2026;29(2):227-30.
4. Matzumura-Kasano JP, Gutiérrez-Crespo HF, Wong Mac JI, Alamo-Palomino IJ. Instrumento para la evaluación del climaterio y la menopausia en el primer nivel de atención. Rev Fac Med Hum. 2020;20(4):560-7.
5. Berta de Sousa F. Impacto do climatério na saúde mental de mulheres brasileiras: rastreamento nacional de depressão. Dissertação de mestrado. São Paulo: EPM/UNIFESP; 2026.
Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.