No White Paper de 2026, a International Menopause Society escolheu a dor crônica como tema central. A mensagem é direta: metade das mulheres na meia-idade convive com dor, e ela ainda é pouco reconhecida, pouco diagnosticada e tratada de forma fragmentada.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

A DOR TEM SEXO E TEM FASE

A dor crônica atinge mais de 30% da população mundial, e as mulheres têm de 50% a 70% mais chance de vivê-la do que os homens. Nas clínicas de dor, elas são maioria: de 62% a 68% dos pacientes no Canadá e 86,7% no registro sueco de reabilitação.

Na meia-idade, a diferença se acentua. Uma metanálise recente mostrou risco maior de dor crônica nas mulheres, com destaque para a fibromialgia, cerca de três vezes mais frequente. Em registros de veteranas norte-americanas, 52% das mulheres na meia-idade tinham dor crônica e 22% tinham dois ou mais diagnósticos de dor. As que tinham sintomas da menopausa apresentaram quase o dobro de chance de dor crônica.

O White Paper resume essa interseção: a transição menopausal coincide com uma vulnerabilidade maior à dor, somada ao fogacho, ao sono fragmentado, às alterações de humor, à névoa mental e ao cansaço. Tudo isso pesa na experiência da dor.

A SÍNDROME MUSCULOESQUELÉTICA DA MENOPAUSA

A dor musculoesquelética atinge cerca de 71% das mulheres na perimenopausa, com frequência maior que na pré-menopausa. Na pós-menopausa, cresce o risco de dor moderada a grave.

O conceito de síndrome musculoesquelética da menopausa reúne um conjunto de alterações ligadas à deficiência de estrogênio:

Todas essas alterações contribuem para a progressão da osteoartrite. O mecanismo tem base biológica sólida: os receptores de estrogênio ERα, ERβ e GPER estão presentes na cartilagem, na sinóvia, no disco intervertebral e nas estruturas neurais. A dor no joelho da osteoartrite, típica da perimenopausa, é influenciada pelo estrogênio em todas as suas etapas, do dano tecidual à sensibilização dos nervos.

A obesidade amplifica o quadro, porque o tecido adiposo funciona como órgão endócrino e inflamatório.

QUANDO A DOR DEIXA DE SER LOCAL

Nem toda dor crônica nasce de lesão. O White Paper reforça três mecanismos que convivem na mesma paciente:

A chave é a sensibilização central. Com estímulo doloroso persistente, os neurônios da medula reduzem o limiar de ativação e o sistema nervoso entra em estado de hiper-reatividade. A dor passa a durar mais que a lesão e se espalha. Por isso, muitas mulheres com alterações discretas nos exames de imagem relatam dor intensa, cansaço, sono ruim e queixas cognitivas. Não reconhecer a sensibilização central leva a exames repetidos, procedimentos desnecessários e frustração da paciente.

FIBROMIALGIA, PELVE E ENXAQUECA: AS DORES QUE SE SOBREPÕEM

Fibromialgia. Numa coorte de 169 pacientes, a fibromialgia começou antes da menopausa em 51% dos casos e junto com ela em 21,9%. As mulheres que entraram na menopausa até os 49 anos tiveram mais sensibilidade à dor do que as que entraram depois.

Dor pélvica crônica. Atinge cerca de 15% das mulheres no mundo e raramente tem uma única origem. Útero, bexiga e vulva compartilham os mesmos segmentos medulares, e a inflamação persistente de um órgão sensibiliza os vizinhos.

Enxaqueca. Atinge cerca de 17% das mulheres e se intensifica na perimenopausa, com a flutuação do estradiol. O White Paper traz pontos práticos:

A LEITURA BRASILEIRA

O White Paper cita um estudo transversal brasileiro em que a dor orofacial, sobretudo a disfunção temporomandibular, esteve associada aos sintomas da menopausa no fim da transição. É um sinal de que a dor da mulher brasileira na menopausa também se expressa em territórios pouco perguntados no consultório.

O documento também dedica uma seção à influência da cultura sobre a experiência da dor. A forma de sentir, nomear e relatar a dor muda entre povos e regiões, e a competência cultural do médico interfere na avaliação e no tratamento. Num país continental, com diferenças regionais tão marcadas, essa leitura reforça a necessidade de dados brasileiros sobre a dor na transição menopausal, que ainda são escassos.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

O QUE FICA

A dor crônica da mulher na meia-idade é frequente, sobreposta e ainda atendida de forma fragmentada, entre a ginecologia, a reumatologia, a neurologia, a psiquiatria e a clínica de dor. O White Paper de 2026 pede uma lente de gênero na pesquisa, um cuidado multidisciplinar e uma abordagem culturalmente sensível. A menopausa não é a causa de toda dor, mas muda o terreno biológico em que ela se instala e se mantém. Ler a dor dentro da transição é o que transforma um sintoma isolado em diagnóstico.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIA

Mailis A, Ang SB, Di Renna T, Marks Kazatsker M, MacGregor EA, Misasi G, Poli J, Simoncini T, Wolfman W, Nappi RE. Chronic pain at midlife. Climacteric. 2026. doi:10.1080/13697137.2026.2722558.

Artigo completo: https://doi.org/10.1080/13697137.2026.2722558

Base: White Paper 2026 da International Menopause Society.