Dados da Mayo Clinic e do estudo australiano AMY quantificam o impacto dos sintomas da transição sobre o trabalho e deslocam o cuidado da menopausa do campo do conforto para o campo da permanência profissional.

Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126

EM 3 PONTOS

UM CUSTO QUE NÃO APARECE NO EXAME

A avaliação clínica da menopausa costuma se concentrar no que a transição faz com o corpo: ondas de calor, sono, osso, perfil cardiometabólico. Um outro desfecho, menos visível no consultório, começa a ser medido com precisão: o impacto sobre a vida profissional. Mais de 1 bilhão de mulheres no mundo estão hoje na menopausa, e uma parcela crescente delas atravessa essa fase ocupando posições de gestão e liderança.

O QUE A MAYO CLINIC MEDIU

No estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings em 2023, 32.469 mulheres de 45 a 60 anos, atendidas na atenção primária em quatro unidades da instituição, foram convidadas a responder a um questionário. Das 5.219 respondentes, 4.440 estavam empregadas e compuseram a análise, com idade média de 53,9 anos. Os sintomas foram avaliados pela Menopause Rating Scale. Os achados:

Os autores destacam que o impacto atravessa níveis hierárquicos e que o estigma ainda leva muitas mulheres a não revelar os sintomas no ambiente de trabalho.

A TRANSIÇÃO COMEÇA ANTES

O Australian Women’s Midlife Years Study (AMY), uma amostra nacionalmente representativa de 8.096 mulheres de 40 a 69 anos, reforça a dimensão do problema. Entre as 5.509 participantes com fase menopausal definida, sintomas vasomotores de início recente associados à mudança no fluxo menstrual já marcaram a perimenopausa, mesmo com ciclos ainda regulares. Na perimenopausa tardia, quase 40% das mulheres conviviam com sintomas vasomotores moderados a graves sem tratamento.

O AMY também incluiu a avaliação do trabalho pago e não pago, uma dimensão frequentemente ignorada: na meia-idade, muitas mulheres acumulam a carreira com o cuidado de filhos e de pais. Os dados de trabalho do estudo foram apresentados no Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, em 2026, e ainda aguardam publicação completa.

Um levantamento australiano anterior já havia mostrado que, quanto mais frequentes e incômodos os sintomas, menor o engajamento e a satisfação no trabalho, e maior a intenção de deixar o emprego.

A LEITURA BRASILEIRA

O Brasil já tem uma primeira estimativa: segundo o Instituto Esfera de Estudos e Inovação, cerca de 29 milhões de brasileiras estão no climatério ou na pós-menopausa, 63% delas economicamente ativas, e os sintomas podem gerar perdas superiores a R$ 2 bilhões por ano em produtividade. Num país em que a mulher na meia-idade divide a carreira com a sustentação econômica e o cuidado da família, esses números são ao mesmo tempo um dado de saúde e um dado de política de trabalho.

AS NORMAS CHEGARAM

Em setembro de 2026, a International Organization for Standardization publicou a ISO 45010, a primeira norma internacional com orientações para apoiar a menstruação e a menopausa no trabalho. No Brasil, desde maio de 2026, a NR-1 inclui os fatores de riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança das empresas. A ISO 45010 deixa explícito que não traz orientação médica, e é justamente nessa lacuna que o cuidado clínico se torna indispensável.

O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO

O QUE FICA

A perimenopausa não chega na aposentadoria. Ela chega no auge da carreira. Por isso, a pergunta clínica precisa ir além do sintoma e alcançar o que essa transição está custando à vida que a mulher construiu.

Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.

REFERÊNCIAS

1. Faubion SS, Enders F, Hedges MS, et al. Impact of menopause symptoms on women in the workplace. Mayo Clin Proc. 2023;98(6):833-45.

2. Ahmed SB, Hardcastle L. Menopause: time for a paradigm shift. Mayo Clin Proc. 2023;98(6):818-20.

3. Islam RM, Bond M, Ghalebeigi A, Wang Y, Walker-Bone K, Davis SR. Prevalence and severity of symptoms across the menopause transition: cross-sectional findings from the Australian Women’s Midlife Years (AMY) Study. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(9):765-76.

4. Jack G, Pitts M, Riach K, et al. Women, Work and the Menopause: releasing the potential of older professional women. Melbourne: La Trobe University; 2014.

5. Instituto Esfera de Estudos e Inovação. A força invisível da economia: mulheres na menopausa e o futuro do trabalho no Brasil. 2026.

6. International Organization for Standardization. ISO 45010:2026. Occupational health and safety management: menstruation and menopause in the workplace. Guidance.

7. The Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement. Menopause. 2022;29(7):767-94.

Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.