No Outubro Rosa, a evidência para tratar o fogacho de quem não pode usar a terapia hormonal se reorganiza: a terapia cognitivo-comportamental na base, medicações conhecidas no meio e uma nova classe, ainda à espera de dados específicos em sobreviventes de câncer de mama.
Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126
EM 3 PONTOS
- Entre 65% e 85% das mulheres tratadas para câncer de mama têm fogachos e suores noturnos, e o sintoma pode comprometer o sono, a qualidade de vida e a adesão à hormonioterapia.
- Revisões de 2025 posicionam a terapia cognitivo-comportamental como primeira linha, com evidência alta, e a hipnose, as medicações não hormonais e os antagonistas de neurocinina como alternativas com evidência de moderada a baixa.
- O fezolinetanto foi aprovado pela Anvisa em 22/06/2026, mas ainda não tem estudo de fase 3 específico em mulheres com câncer de mama. Seu posicionamento nessas pacientes depende dos estudos em andamento.
QUEM PRECISA DESSA RESPOSTA
Tamoxifeno e inibidores da aromatase estão entre as causas do fogacho em sobreviventes de câncer de mama, e os sintomas costumam ser mais intensos e duradouros do que na menopausa natural. Como a terapia hormonal da menopausa não é indicada na maioria dessas mulheres, os não hormonais são a base do tratamento. A relevância vai além do conforto: o sintoma prejudica o sono e pode pesar na continuidade da hormonioterapia, que reduz o risco de recidiva.
ONDE O FOGACHO NASCE
No hipotálamo, os neurônios KNDy regulam a temperatura do corpo. Com a flutuação do estrogênio, a neurocinina B hiperativa esse circuito e dispara o fogacho. A neuromodulação desse termostato foi tema de sessão no Congresso Mundial de Menopausa, ao lado das opções comportamentais e da saúde das sobreviventes.
O QUE A EVIDÊNCIA SUSTENTA, EM CAMADAS
Sem receita. No estudo MENOS 1, com 96 mulheres após o tratamento do câncer de mama, seis sessões semanais de terapia cognitivo-comportamental em grupo reduziram o incômodo dos fogachos e melhoraram humor e sono. Em ensaio com 60 sobreviventes, cinco sessões de hipnose clínica reduziram em 68% o escore dos fogachos, em comparação com nenhum tratamento. Por ser um estudo pequeno e sem placebo, uma revisão de 2025 gradua a evidência da hipnose como moderada a baixa.
Medicações não hormonais. Antidepressivos ISRS e IRSN, gabapentina e oxibutinina têm evidência. Em levantamento de vida real nos Estados Unidos e na Europa, venlafaxina (24,7%), citalopram (16,5%) e paroxetina (13,6%) foram as mais prescritas. A paroxetina e a fluoxetina inibem a CYP2D6 e reduzem a ativação do tamoxifeno, e devem ser evitadas nessa combinação.
Antagonistas de neurocinina. O fezolinetanto bloqueia o receptor NK3 e não repõe estrogênio. No SKYLIGHT 1, com 527 mulheres, 45 mg reduziram a frequência dos fogachos em 61%, contra 35% com placebo, em 12 semanas, cerca de 2,5 episódios a menos por dia. Na análise de mulheres inadequadas para a terapia hormonal, 60,6% alcançaram redução de pelo menos metade dos fogachos, contra 35,7% com placebo. O DAYLIGHT confirmou a eficácia em 453 mulheres desse perfil, em 24 semanas, com efeito já no primeiro dia. A função hepática deve ser monitorada. Uma revisão de 2025 lembra que o benefício foi demonstrado em mulheres sem história de câncer de mama, e uma de 2026 aponta que o posicionamento do fezolinetanto nessas pacientes depende de estudos específicos em andamento.
A LEITURA BRASILEIRA
Segundo dados divulgados pela fabricante na aprovação, 36,2% das brasileiras de 40 a 65 anos têm fogachos moderados a intensos, contra 15,6% da média global. A disponibilidade nas farmácias depende da definição de preço pela CMED. As opções sem receita, em contrapartida, podem ser incorporadas aos serviços de oncologia, inclusive conduzidas por enfermeiras treinadas, como propõem os autores do MENOS 1.
O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO
- Perguntar ativamente pelo fogacho, inclusive o noturno, em toda mulher em hormonioterapia
- Decidir a conduta junto com o oncologista e checar interações, sobretudo com o tamoxifeno
- Considerar a terapia cognitivo-comportamental como base do plano, associada ao que for indicado
- Fora do câncer de mama, a terapia hormonal segue como o tratamento mais eficaz para o fogacho. Para quem não pode usá-la, existe agora um caminho estruturado, com lacunas que a pesquisa ainda precisa fechar
O QUE FICA
O Outubro Rosa pede que o cuidado com a sobrevivente inclua as noites. O alvo não é o ovário. É o termostato.
Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.
REFERÊNCIAS
1. Mann E, Smith MJ, Hellier J, et al. Cognitive behavioural treatment for women who have menopausal symptoms after breast cancer treatment (MENOS 1): a randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2012;13(3):309-18.
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3. Lederman S, Ottery FD, Cano A, et al. Fezolinetant for treatment of moderate-to-severe vasomotor symptoms associated with menopause (SKYLIGHT 1). Lancet. 2023;401(10382):1091-102.
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9. Practical considerations and emerging approaches for the management of vasomotor and sexual symptoms in breast cancer patients on endocrine therapies. Expert Rev Clin Pharmacol. 2025;18(10).
10. Neurokinin pathway antagonists for vasomotor symptoms in women with breast cancer: focus on elinzanetant and fezolinetant. 2026.
11. Treatment utilization and non-drug interventions for vasomotor symptoms in breast cancer survivors taking endocrine therapy: real-world findings from the United States and Europe. Maturitas. 2024.
12. Astellas Farma. Comunicado da aprovação do fezolinetanto pela Anvisa. 22 de junho de 2026.
Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.