Coortes de longo prazo e estudos com monitorização fisiológica associam os sintomas vasomotores, sobretudo os do sono, ao risco cardiovascular e à saúde cerebrovascular da mulher. O achado reposiciona o fogacho na anamnese e na prescrição.
Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126
EM 3 PONTOS
- No estudo SWAN, com mais de 20 anos de seguimento, sintomas vasomotores frequentes e persistentes se associaram a 51% a 77% mais risco de eventos cardiovasculares, sem explicação pelos fatores de risco clássicos nem pelos níveis de estradiol.
- Medidos por monitorização fisiológica, os fogachos do sono se associam a maior volume de hiperintensidades da substância branca e a um perfil plasmático menos favorável de beta-amiloide.
- A terapia hormonal segue como o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores. A hipótese de que tratar o fogacho noturno proteja coração e cérebro é uma perspectiva em construção.
DE DESCONFORTO A MARCADOR
Durante décadas, os sintomas vasomotores foram tratados como manifestação transitória e benigna da transição menopausal. Dois movimentos da pesquisa mudaram essa leitura: o seguimento prolongado de grandes coortes e a substituição do relato subjetivo por monitores fisiológicos de condutância da pele, capazes de registrar cada episódio ao longo de 24 horas, inclusive durante o sono.
A diferença de método importa. Ainda em 2016, um estudo com monitorização fisiológica mostrou que mais fogachos registrados durante o sono se associavam a maior carga de hiperintensidades da substância branca, enquanto os fogachos relatados pelas próprias mulheres não mostravam essa relação. O que é medido com precisão revela o que o relato não alcança.
UM SINTOMA MAIS LONGO DO QUE SE SUPUNHA
No Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN), os sintomas vasomotores frequentes duraram, em mediana, 7,4 anos, e persistiram por 4,5 anos após a última menstruação. Mulheres em que os sintomas começaram mais cedo na transição tiveram a maior duração. A frequência também varia entre populações: nos Estados Unidos, a proporção de mulheres com sintomas vasomotores foi de cerca de 50% entre as de origem japonesa a 80% entre as afro-americanas.
O CORAÇÃO
A mesma coorte acompanhou mulheres por mais de 20 anos e registrou 231 eventos cardiovasculares, entre infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e revascularização. Os achados:
- sintomas vasomotores frequentes no início do seguimento se associaram a risco 51% maior de eventos cardiovasculares;
- a persistência de sintomas frequentes ao longo dos anos elevou essa associação para até 77%;
- as associações se mantiveram após ajuste para os fatores de risco cardiovascular clássicos e não foram explicadas pelos níveis de estradiol endógeno.
Os autores propõem que os sintomas vasomotores possam representar um fator de risco cardiovascular específico da mulher. A coorte também já havia associado sintomas frequentes a pressão arterial mais elevada e a perfis de risco menos favoráveis.
O CÉREBRO
Em 2023, um estudo com 226 mulheres de 45 a 67 anos, sem terapia hormonal, combinou monitorização de 24 horas, actigrafia para delimitar sono e vigília, e ressonância magnética. As participantes tiveram, em média, 5 episódios por dia, cerca de 3 em vigília e 2 durante o sono.
- Os sintomas vasomotores medidos fisiologicamente se associaram a maior volume de hiperintensidades da substância branca, marcador de doença de pequenos vasos cerebrais.
- A associação mais forte foi a dos episódios durante o sono, com impacto estimado de cerca de 6% a mais de volume de lesão para cada episódio noturno adicional.
- As associações apareceram nas regiões profunda, periventricular e frontal, e não foram explicadas pela fragmentação do sono medida por actigrafia.
Em 2024, a mesma linha de pesquisa avançou para os biomarcadores. Em 248 mulheres no fim da perimenopausa e na pós-menopausa, com fogachos registrados por sensor, os episódios noturnos se associaram a um perfil plasmático menos favorável de beta-amiloide, após ajuste para idade, etnia, escolaridade, índice de massa corporal e genótipo APOE4. Para os autores, o fogacho noturno pode marcar as mulheres com maior risco de doença de Alzheimer.
POR QUE A NOITE?
O mecanismo ainda está sendo desenhado. As hipóteses mais estudadas apontam para a resposta vascular e autonômica que acompanha cada episódio e que também se expressa na circulação cerebral. O fato de as associações se manterem mesmo após considerar a qualidade do sono sugere um efeito próprio do fogacho noturno, além da simples fragmentação do descanso.
A LEITURA BRASILEIRA
A maior parte dessas evidências vem de coortes norte-americanas, e a própria SWAN mostra que frequência e duração dos sintomas variam entre populações. Num país de matriz tão miscigenada e de realidades regionais tão distintas, a intensidade, a duração e o peso clínico do fogacho não podem ser presumidos a partir de amostras estrangeiras. A anamnese brasileira precisa perguntar, medir e registrar.
O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO
- A pergunta precisa chegar à noite. Frequência, intensidade e, especificamente, os episódios durante o sono.
- O fogacho frequente e persistente é sinal para rastrear o risco cardiovascular, com atenção a pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e composição corporal.
- A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, com indicação individualizada a partir do perfil de cada mulher.
- Quando a terapia hormonal não é indicada ou desejada, há opções não hormonais com evidência, incluindo os antagonistas do receptor de neurocinina 3 e as abordagens comportamentais.
- A proteção do coração e do cérebro pelo tratamento do fogacho noturno é uma perspectiva em construção, e é exatamente essa a pergunta que os próximos ensaios precisam responder.
O QUE FICA
O fogacho noturno deixou de ser apenas o calor que interrompe o sono. É um sinal que conversa com o coração, com os vasos e com o cérebro, e que pede leitura clínica, e não resignação. Na flutuação do estradiol, o corpo avisa antes de adoecer.
Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.
REFERÊNCIAS
1. Thurston RC, Aslanidou Vlachos HE, Derby CA, et al. Menopausal vasomotor symptoms and risk of incident cardiovascular disease events in SWAN. J Am Heart Assoc. 2021;10(3):e017416.
2. Thurston RC, Wu M, Chang YF, et al. Menopausal vasomotor symptoms and white matter hyperintensities in midlife women. Neurology. 2023;100(2):e133-41.
3. Thurston RC, Maki P, Chang Y, et al. Menopausal vasomotor symptoms and plasma Alzheimer disease biomarkers. Am J Obstet Gynecol. 2024;230(3):342.e1-8.
4. Thurston RC, Aizenstein HJ, Derby CA, Sejdic E, Maki PM. Menopausal hot flashes and white matter hyperintensities. Menopause. 2016;23(1):27-32.
5. Avis NE, Crawford SL, Greendale G, et al. Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition. JAMA Intern Med. 2015;175(4):531-9.
6. The Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-94.
7. The Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023;30(6):573-90.
Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.