Dados de alta precisão do Australian Women’s Midlife Years Study mostram que a testosterona da mulher acompanha a idade, e não a transição menopausal. O achado reorganiza a forma de ler o exame e de construir a indicação.
Por Dra. Fabiane Berta | médica e pesquisadora em menopausa | CRMSP 151.126
EM 3 PONTOS
- Em mulheres de 40 a 69 anos, a testosterona declina com a idade, chega ao ponto mais baixo por volta dos 58 a 59 anos e volta a subir levemente. A menopausa natural não altera essa curva.
- O estradiol marca a transição; a testosterona segue um relógio próprio. Por isso, a fase menopausal não é o critério que orienta a prescrição de androgênios.
- A indicação consolidada é o transtorno do desejo sexual hipoativo. Humor, cognição, energia, osso e músculo formam um campo de evidência em construção, que já ocupa a agenda científica internacional.
A PERGUNTA QUE VOLTOU AO CENTRO
“Androgênios: devem ser o terceiro componente da terapia hormonal?” A pergunta foi tema de um Meet the Expert no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, em 2026. Ela resume um debate que saiu das redes sociais e chegou aos consultórios: a testosterona como peça da terapia hormonal da mulher na menopausa. A resposta científica começa por um ponto anterior: entender como a testosterona se comporta na maturidade feminina.
POR QUE A RESPOSTA DEMOROU
Durante décadas, os estudos sobre androgênios na meia-idade feminina esbarraram em limitações de método. Incluíam mulheres em uso de terapias que alteram a produção de esteroides sexuais, classificavam a fase menopausal de forma pouco confiável, usavam imunoensaios com baixa sensibilidade e precisão nas concentrações típicas da mulher e nem sempre ajustavam para fatores como índice de massa corporal e tabagismo. O resultado era uma pergunta antiga sem resposta definitiva.
Ainda assim, havia sinais. Um estudo australiano de 2005, com cerca de 1.400 mulheres, já descrevia um declínio gradual da testosterona desde a terceira década de vida, sem mudança associada à menopausa natural, e concentrações menores após a retirada dos dois ovários.
O QUE O AMY MOSTROU
O Australian Women’s Midlife Years Study (AMY) recrutou uma amostra nacionalmente representativa de 8.096 mulheres de 40 a 69 anos. Testosterona, androstenediona e desidroepiandrosterona (DHEA) foram dosadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, o método de maior precisão para concentrações baixas. A fase menopausal seguiu os critérios do Stages of Reproductive Aging Workshop (STRAW+10).
Após excluir mulheres sem classificação de fase, com disfunção tireoidiana, hiperprolactinemia, ooforectomia bilateral ou gestação não informada, a análise principal incluiu 1.104 participantes. Os achados centrais:
- a testosterona declina a partir dos 40 anos, atinge o ponto mais baixo por volta dos 58 a 59 anos e apresenta leve elevação depois disso;
- a menopausa natural não altera essa trajetória;
- androstenediona e DHEA diminuem 51% e 33% entre os 40 e os 69 anos;
- na faixa de 48 a 53 anos, quando mulheres de mesma idade estão em fases diferentes, testosterona e DHEA não variaram com a fase; apenas a androstenediona foi maior na pré-menopausa.
Na mesma coorte, a disfunção sexual atingiu cerca de 1 em cada 4 mulheres, e as dificuldades de desejo e de excitação dobraram no início da perimenopausa. Após ajuste para fatores de confusão, o desejo sexual não se associou à testosterona circulante, enquanto orgasmo e excitação mostraram associações que variaram conforme a fase menopausal, o que reforça a natureza multifatorial da função sexual na transição.
DOIS HORMÔNIOS, DOIS RELÓGIOS
A transição menopausal é definida pela flutuação e pela redução do estradiol, que sustenta o terreno biológico de múltiplos sistemas nessa fase. A testosterona responde a outro relógio, o da idade. Essa dissociação tem consequência prática: a fase menopausal não é o gatilho da indicação de androgênios. O que orienta a decisão é o quadro clínico de cada mulher.
Vale lembrar que parte da testosterona circulante é convertida em estradiol nos tecidos periféricos. Androgênios e estrogênios não competem pelo protagonismo: dialogam dentro da mesma fisiologia.
A LEITURA BRASILEIRA
Um retrato brasileiro equivalente, com amostra nacional e dosagem de alta precisão, ainda é uma lacuna. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial reconhece a espectrometria de massas como padrão-ouro para a dosagem de testosterona em mulheres e alerta que os imunoensaios, mais acessíveis, podem carecer de acurácia nas concentrações femininas. Num país continental, com perfis metabólicos e acessos tão distintos entre as regiões, a individualização deixa de ser preferência e passa a ser método.
O QUE MUDA NO CONSULTÓRIO
- O exame informa, a consulta indica. O Consenso Global sobre testosterona na mulher não recomenda o uso da dosagem para diagnosticar o transtorno do desejo sexual hipoativo. A indicação nasce da avaliação clínica.
- A indicação consolidada é o desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após investigação dos demais fatores envolvidos.
- Humor, cognição, energia, osso e músculo formam um campo de evidência em construção. O próprio grupo do AMY publicou, em 2026, análise sobre testosterona e desempenho cognitivo em mulheres mais velhas, e novas perspectivas foram discutidas no Congresso Mundial.
- No acompanhamento, a dosagem tem lugar: a referência de segurança é manter a concentração na faixa fisiológica da pré-menopausa, com reavaliação clínica periódica da resposta.
- O estradiol segue no centro da transição. A testosterona entra quando há indicação clínica, como parte de uma prescrição construída para aquela mulher.
O QUE FICA
A testosterona da mulher acompanha a idade, e não a menopausa. Por isso, a pergunta clínica deixa de ser qual o número e passa a ser qual o sintoma, qual a mulher e qual o objetivo. Cada hormônio tem o seu tempo. E a sua prescrição.
Prescrição inteligente não é receita pronta. É raciocínio clínico com sotaque brasileiro.
REFERÊNCIAS
1. Wang Y, Islam RM, Bond M, Davis SR. Testosterone and pre-androgens by age and menopausal stage at midlife: findings from a cross-sectional study. eBioMedicine. 2025;121:105972.
2. Wang Y, et al. Sexual dysfunction in women at midlife: findings from the Australian Women’s Midlife Years Study. Lancet Obstet Gynaecol Women’s Health. 2025;1(3):e198-208.
3. Wang Y, et al. Associations between testosterone and pre-androgens and sexual function in midlife women. Fertil Steril. 2026;126(3):534-44.
4. Davison SL, Bell R, Donath S, Montalto JG, Davis SR. Androgen levels in adult females: changes with age, menopause, and oophorectomy. J Clin Endocrinol Metab. 2005;90(7):3847-53.
5. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Climacteric. 2019;22(5):429-34.
6. Harlow SD, Gass M, Hall JE, et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop + 10. Menopause. 2012;19(4):387-95.
7. Sultana F, Islam RM, Davis SR. Associations between declining testosterone concentrations and cognitive performance in community-dwelling older Australian women: a prospective cohort study. Climacteric. 2026;29(1):46-52.
8. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial. Posicionamento oficial sobre a dosagem de testosterona em mulheres.
9. Davis SR. Androgens: should they be the third component in MHT? Meet the Expert. 20th IMS World Congress on Menopause; 2026.
Tema discutido no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, 2026.